Os ossos são assim: indispensáveis e inspiradores

Eu devia ter uns 6 ou 7 anos quando meus pais me levaram a um museu de história natural. Talvez tenha sido esse meu primeiro contato com esse tema.

Andando pelos corredores daquele museu, em cada sala, cada corredor, cada vitrine, em meio a diferentes pedaços da história, um elemento se fazia constante: ossos! Fragmentos de ossos, artefatos feitos de ossos, de animais extintos, ossos que nos lecionavam a história da evolução humana, enfim, ossos para que te quero!

Para possibilitar a evolução das espécies, os répteis tiveram que desenvolver um aparelho capaz de dar-lhes estrutura para o deslocamento em terra e, ainda mais, que pudessem lhes conferir a capacidade de alcançar os alimentos nas árvores. Os ossos se desenvolviam à medida em que as espécies também o faziam, agora em terra firme. A postura bípede, sinal maior do surgimento da espécie humana na superfície terrestre, foi apenas mais uma das maravilhas protagonizadas pelos ossos há milhões de anos.

Em minha primeira comunhão, os ossos me intrigaram quando me foi dito que Deus criou a mulher ao retirar uma costela de Adão. Talvez tenha sido a primeira cirurgia, ortopédica por sinal, que se tem notícia! O fato é que não foi uma costela qualquer. As costelas flutuantes, as falsas e as menores foram desprezadas. Deus usou exatamente uma costela verdadeira. Segundo um amigo, escritor de Brasília e membro do Conselho Editorial do JAMB Cultura: “Deus usou a mais perfeita das costelas, a sétima. Tenho como certo que foi do lado esquerdo, que é o lado da maior pulsação do coração.” Era, portanto, o osso, mais uma vez participando da melhor criação deste e do outro mundo: a mulher.

Alguns anos mais tarde, já na adolescência, assistindo TV, pude ver várias notícias que apresentavam o desvendar de crimes através da análise de ossos, remanescentes.

2001, uma odisséia no espaço, o filme. Fui assistir com uma namoradinha (hoje esposa) e lá estava, novamente, estampada na minha frente, a importância dos ossos como alicerces do desenvolvimento humano! A primeira arma, o primeiro instrumento de defesa e caça: um osso! (Figura 1).

Figura 1: cena do filme 2001, Uma Odisseia no Espaço, Stanley Kubrick e Arthur C Clarke, 1968

Veio o vestibular, que prestei para medicina, e não tive muita dificuldade de me apaixonar pela “osteologia”, logo no primeiro ano do ensino superior. Para mim era fascinante como aquelas estruturas, de formas tão distintas, conseguiam desempenhar, de maneira tão harmoniosa, tantas funções no corpo humano. Logo no terceiro ano, lá estava eu estagiando em ortopedia…

Na faculdade, o professor perguntava “Que estrutura óssea é essa?” ou “Qual a importância desse relevo ósseo (apontando para uma tuberosidade ou uma crista)?”. Quanto mais eu estudava, mais me apaixonava pelo estudo dos ossos.

Ao final do meu curso de medicina, seria inevitável: a residência em ortopedia tornou-se meu objetivo natural! Alguns de meus amigos diziam: “Não sei o que você vê nessa especialidade” ou ainda “Faça uma especialidade mais nobre…” e toda a sorte de frases que passei a ouvir durante toda minha residência.

Curso difícil e sacrificante devido aos plantões de traumatologia e incontáveis noites em claro, reconstruindo ossos como quebra-cabeças vivos entre fios, placas e parafusos. Após a residência, muito cedo, pude sentir algo que meu professor havia me dito lá no início do curso: “O erro da maior parte dos médicos, a terra esconde, mas o erro do ortopedista anda pelas ruas para que todos o vejam…”. Mais uma vez a vida me dizia: ossos contam histórias!

E contam mesmo! Para citar um bom exemplo, uma publicação do prestigioso Journal of Bone and Mineral Research¹ traz uma das tantas vinhetas que dão prova da riqueza de informações que os ossos – E SÓ ELES – nos trazem ao longo dos tempos, desde que o mundo é mundo. O caso estudado por J. Dequeker foca em achados provenientes de Lisht, no Alto Egito, datados da 12a Dinastia (1990-1786 a.C.). Através de estudos anatômicos, radiológicos e suas medidas radiológicas, ele verificou elementos de osteoporose complicada por fratura do colo femoral em uma mulher com múltiplas compressões de corpos vertebrais. Esse caso possibilitou acrescentar maior conteúdo a elementos históricos de que a osteoporose e suas consequências já existiam na Antiguidade. Elucidou ainda que a sobrevida daquela mulher por longo prazo, mesmo com uma fratura extracapsular do fêmur proximal (vide imagem do fêmur com total reabsorção da cabeça femoral correspondente – Figura 2) indicariam, segundo os pesquisadores, a existência de condições sociais de suporte à vida.

Figura 2: Avaliação radiológica de múmia de mulher da 12a Dinastia Egípcia, onde vê-se uma fratura do colo femoral direito (D), reabsorção da cabeça femoral esquerda (centro) e deformidades vertebrais compatíveis com fraturas por osteoporose (E)

E por falar em fraturas, há que ser lembrado que o tecido ósseo é o único capaz de se regenerar por completo, ou seja, tem a capacidade de produzir-se em resposta a lesões e de se remodelar até alcançar sua forma e funções originais.

Hoje não tenho dúvidas! Sei que os ossos nos contam muitas histórias! Quando me perguntam “Por que você escolheu a ortopedia?”, tenho uma resposta tão curta quanto plena: Escolhi a ortopedia porque os ossos são os órgãos mais importantes do corpo humano!

Senão, vejamos:

Sem ossos não nos alimentaríamos. Sem ossos nossos dentes, fundamentais para a mastigação, não emprestariam suas características, só possíveis graças à fenomenal alavanca que nossa mandíbula, opondo-se à maxila, desempenha todos os dias de nossa vida;

Sem ossos, nossos olhos – guardados, ancorados e protegidos pelas órbitas de nossos crânios – não teriam referencias para desempenharem suas funções na visão e no equilíbrio. Disfunções nos ossos do crânio, com frequência, refletem-se em distúrbios da visão e suas consequências;

E o que podemos dizer da audição? Ao batermos num diapasão e o encostarmos na fronte, verificamos um papel poucas vezes comentado dos ossos na fisiologia da audição: a transmissão do som. Normalmente, somente reverenciamos as estruturas do ouvido interno, o martelo, a bigorna e o estribo (opa, que também são ossos!), como elementos importantes para esse sentido humano. Mas o fato é que, de uma forma ou de outra, os ossos não são apenas importantes na audição, mas essenciais! Sem ossos não seríamos capazes de ouvir Bach, Beethoven, Chopin e tantos outros sons capazes de despertar os mais variados sentimentos humanos!

A espécie humana caracteriza-se pelo uso de seus sentidos e habilidades graças aos ossos. A mão que acaricia, através dos movimentos complexos e absolutamente sincronizados das falanges, dos ossos do carpo e dos membros superiores é a mesma que extrai de um piano, de um violão ou de tantos outros instrumentos, sons que fazem a trilha sonora de vidas de bilhões de habitantes da terra. Sem os ossos, seríamos condenados a viver distantes de nossos semelhantes e privados de tantas belezas que chamamos de artes.

Se pensarmos nos ossos de Michelangelo trabalhando no teto da Capela Sistina, ou em sua emoção ao concluir sua célebre escultura de Moisés, poderíamos imaginar que, ao bater com o martelo e apontar seus dedos em profunda adoração ao próprio trabalho e exclamar “Parla!”, o fazia não à estátua mas, no fundo, aos próprios ossos de suas mãos, verdadeiros autores daquela obra e, então, postos em regozijo, admiração e êxtase plenos;

Figura 3: Estátua de Moisés, por Michelangelo. Especula-se que ele, ao concluir sua obra e extasiado pelo realismo de seu resultado final, teria batido nela com seu martelo e exclamado: “Parla, parla!”. Uma grande obra prima, essa escultura encontra-se na entrada da Igreja de San Pietro in Vincoli, Roma.

Não só a arte mas toda força de trabalho humano existe na intrínseca dependência dos ossos. Antes mesmo da invenção da alavanca, esses fascinantes órgãos já possibilitavam à humanidade a construção de tudo que hoje temos. Dá-me um osso longo e um ponto de apoio que poderei mover o mundo!

Mas os ossos são mais, representam mais, fazem mais: como caixas de proteção, nossos ossos garantem nossa sobrevivência durante momentos banais, mas que poderiam ser fatais sem eles. O sistema nervoso central, o coração, pulmões, o aparelho reprodutor feminino – que garante a preservação da espécie – encontram no arcabouço ósseo a proteção necessária para que sejam poupados dos traumas e ameaças ambientais. A vida simplesmente não seria possível sem uma grade torácica, uma pelve e um crânio protegendo nossos órgãos. O parto em si já seria um grande desafio à sobrevivência! Pacientes com Osteogenesis Imperfecta representam, nesse sentido, um exemplo modesto do que seria a existência humana sem esses indispensáveis protagonistas do corpo humano – os ossos!

E por falar em perpetuação da espécie, nem precisaríamos lembrar a importância dos ossos da pelve no processo reprodutivo, seja no papel de protetor de um eventual embrião e feto, como nos movimentos que precedem e possibilitam o prazer do orgasmo e da ejaculação para a inseminação. Sem os ossos, nossa reprodução seria antes que difícil, sem graça! Como não bastassem esses fatores no processo reprodutivo, ainda que a testosterona, produzida pelos testículos seja reconhecidamente importante na preservação da saúde óssea, a osteocalcina, sintetizada exatamente pelos osteoblastos, exerce papel fundamental na atividade das células de Leidig através de receptores de membrana para a proteína G, regulando a síntese desse hormônio sexual². Em outras palavras, sem ossos os homens seriam menos férteis!

Até quando respiramos dependemos em vários níveis de nossos ossos. O gradil costal desempenha papel essencial nessa função fisiológica e, se não fosse suficiente, é neles, nos ossos, que as hemácias são produzidas, permitindo a hematose e consequente transporte do oxigênio a todos os tecidos do corpo humano – até mesmo aos ossos!

Boa parte do nosso sistema endócrino (lembro que algumas glândulas são protegidas pelos ossos) tem sua função diretamente regulada por elementos mantidos em estoque exatamente em nossos ossos: o cálcio e o fósforo. Sem esses estoques, nosso coração teria dificuldade de manter seu ritmo, nossas placas motoras e fibras musculares não seriam eficientes e entrariam com frequência em tetania.

Ah, os ossos! Sem eles nossa dieta teria que prover quantidades de minerais a todo minuto para que mínimas funções de sobrevivência fossem preservadas! E ainda são discriminados! São dilapidados toda vez que o sistema endócrino se desregula! Isso é uma covardia – instruir células geradas exatamente em sua medula (os osteoclastos) a reabsorverem seu próprio território com o propósito de manter a calcemia e preservar as funções de outros órgãos?!? A osteoporose vem se apresentando como uma das grandes epidemias deste século – mas que fique claro que não por culpa dos ossos! São eles, na verdade, as vítimas dessa enfermidade.

E por falar em células da medula óssea, temos que lembrar que também nos ossos é que se encontram os nascedouros de grande parte das células de defesa do nosso corpo. Ali nascem leucócitos que vão garantir na corrente sanguínea – nossa sobrevivência num mundo tão cheio de microorganismos também lutando pelas suas vidas. Sem os ossos, padeceríamos ante a agentes triviais, pois não seríamos capazes de deflagrar as respostas imunes que desenvolvemos. E porque não lembrar também da capacidade pluripotencial através da qual, por tão fascinante, células de nossa medula óssea vêm desvendando um novo campo do conhecimento!

Hoje, após quase 34 anos de formado e 39 ligado à ortopedia, posso dizer que escolhi essa especialidade porque os ossos são essenciais desde a história da humanidade e indispensáveis para a existência humana! P.S. Em futuros capítulos: Cartilagens, Músculos, Tendões e Ligamentos. Não percam!

Referências:

1. Jan Dequeker. HipFracture and Osteoporosis in a XIIth Dynasty Female Skeleton from Lisht, Upper Egypt, JBMR, 1997; 12(6)
2. Oury, F., Sumara, G., Sumara, O., Ferron, M., Chang, H., Smith, C.E., Hermo, L., Suarez, S., Roth, B.L., Ducy, P., et al. (2011). Endocrine regulation of male fertility by the skeleton, Cell, 2011;144:796-809

Data: 06/08/2015

Autor/Fonte: Helio Barroso dos Reis